Avaliação: oficinas da UFRN em unidades socioeducativas da Fundase superam expectativas

O projeto “Aprendizagens para o mundo do trabalho: pontes entre educação e profissionalização no sistema socioeducativo”, desenvolvido pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), foi concluído com um seminário de avaliação, na segunda-feira (15). O encontro reuniu, no auditório do Centro de Educação, apenas pessoas envolvidas no projeto, da universidade e da Fundação de Atendimento Socioeducativo do Rio Grande do Norte (Fundase/RN), além do Grupo de Monitoramento e Fiscalização do Sistema Carcerário e de Execução das Medidas Socioeducativas do Tribunal de Justiça (GMF/TJRN).
Executada entre maio e dezembro de 2025, a iniciativa mobilizou cerca de 200 adolescentes em seis projetos de pesquisa e extensão, com a participação de mais de 30 pesquisadores, que seguem trabalhando nos relatórios com os resultados.
As unidades de internação e de semiliberdade da Região Metropolitana de Natal receberam mais de 300 horas das seguintes oficinas: Letramento matemático; Arte e cultura; Alfabetização e letramento; Direitos humanos, cuidado e responsabilização; e Corpo e movimento. A abordagem utilizada observou o respeito à condição peculiar de pessoa em desenvolvimento, seguindo os parâmetros legais do Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo (Sinase).
O projeto interdisciplinar inclui estudantes bolsistas, professores e pesquisadores dos cursos de Pedagogia, Serviço Social, Psicologia, Artes Visuais e Educação Física. A coordenação geral do projeto é da professora Cláudia Kranz, do Departamento de Práticas Educacionais e Currículo; e a subcoordenação, da professora Cynara Ribeiro, do Departamento de Fundamentos e Políticas da Educação – ambas por indicação do grupo de docentes participantes.
O trabalho é parte do programa de desenvolvimento de ações integradas voltadas à qualificação das pessoas privadas de liberdade para o apoio e o incentivo ao trabalho, contemplado por Termo de Cooperação Técnica com o Ministério Público do Trabalho – MPT para criação da Rede Potiguar de Trabalho Decente no Sistema Prisional. O acordo, assinado pela governadora Fátima Bezerra em junho de 2024, tem ainda a participação do Tribunal de Justiça do Estado (TJRN), da Secretaria de Estado da Administração Penitenciária (Seap) e do Ministério Público Estadual (MPRN).
Transformações visíveis no cotidiano das unidades
A avaliação coletiva foi marcada por agradecimentos e por emoção, ao apontar que os resultados alcançados superaram as expectativas iniciais tanto da comunidade acadêmica como dos servidores das unidades de atendimento e gestão.
“É muito importante ouvir da UFRN que esse trabalho possibilitou o desenvolvimento de uma metodologia acadêmica de intervenção, no âmbito da pesquisa e da extensão, mas também do ensino. Da mesma forma, foi muito importante para nós. Inclusive porque a Fundase foi vista como ela é, com seus desafios e urgências. Se há algo especial nesse processo, foi a capacidade dos operadores de adaptarem os projetos às diferentes realidades. Esse projeto revelou, com toda concretude, que é possível fazer socioeducação de uma forma que toque e mobilize os adolescentes, fazendo com que seus interesses se revelem”, avaliou o presidente da Fundase/RN, Herculano Campos.
Um dos princípios do projeto foi o aspecto colaborativo, explicou a coordenadora, Cláudia Kranz. “As pessoas se implicaram e isso é significativo demais. Na verdade, foi o que possibilitou que a gente pudesse executar esse projeto”, disse, ao mencionar instituições e categorias que participaram ativamente e nos bastidores das ações educativas. O evento destacou a participação das equipes de servidores das unidades, especialmente agentes socioeducativos que foram tocados pelo trabalho.
A professora Cynara Ribeiro repetiu os agradecimentos pela colaboração de todos e comemorou os resultados com os socioeducandos: “Arrisco dizer que ninguém imaginaria, em fevereiro de 2025, que esse projeto resultaria em pipas, em corações, cartões de namorados, em estúdios de gravação, em visitas desses jovens à universidade; que resultaria em tantas cores, resultaria em tantas conversas, colagens, pinturas, tantos cartazes. Embora estejamos em um momento muito inicial da avaliação, arrisco dizer que os nossos resultados foram muito além do que a gente imaginou”.
A diretora de Desenvolvimento Institucional da Fundase/RN, Sayonara Dias, foi a articuladora da Fundação no projeto, participando de todas as etapas, do planejamento à avaliação. Ao relembrar o processo, destacou que “os relatos das reuniões eram maravilhosos, de muita crença em um trabalho socioeducativo realmente humanizado, e sempre muito emocionantes”, ressaltando que, em nenhum momento, se perderam de vista os parâmetros de segurança. Ao contrário, a segurança foi compreendida como elemento que viabiliza a ação pedagógica, e não como fator limitador.
O seminário foi encerrado com uma reflexão sobre a dimensão humana da socioeducação. “Não podemos nos deixar endurecer diante de tantos desafios que é a socioeducação e tanto contexto de violência que esses adolescentes e jovens vivenciaram. Que a gente possa acreditar e desenvolver cada vez mais a pedagogia da esperança, fazer com que as atividades possibilitem mudanças de vida, na medida em que eles identificam suas habilidades e potenciais. Não é simples, mas é essa a nossa missão”, ressaltou Sayonara, ao enfatizar que a análise é coletiva, incluindo a Gerência de Atendimento Socioeducativo e o Núcleo de Segurança Institucional, que acompanharam o projeto.
Case Pitimbu: participação ampliada
No Case Pitimbu, a experiência foi marcada pela ampliação das turmas e pela adesão e permanência dos adolescentes nas atividades. O gerente da unidade, Mocilayr Gunnar, destacou a participação simultânea de 35 adolescentes em atividades, sem qualquer registro de tensão, realidade distinta de períodos anteriores. “Isso mostra maturidade do serviço. Não é que o perfil do adolescente tenha mudado, foi o nosso trabalho e a forma como eles responderam”, avaliou, considerando também que a experiência trouxe maior flexibilidade à rotina da unidade e evidenciou avanços no atendimento socioeducativo.
Casemi Nazaré: compromisso dos adolescentes
No Casemi Nazaré, as oficinas tiveram impacto inclusive entre adolescentes que saíram do regime de internação para a semiliberdade e manifestaram o desejo de continuar participando das atividades. A gerente, Flávia Santos, relatou que o processo foi marcado pelo compromisso e pelo vínculo construído. “Foi um trabalho de escuta e acolhimento em um contexto que muitas vezes é invisível. O resultado foi muito bonito”, afirmou, destacando o desenvolvimento significativo de alguns participantes ao longo do projeto.
Casep Metropolitano: entrada no sistema com reflexão
No Casep Metropolitano, o subgerente técnico Rodrigo Chocrón destacou que, por se tratar de uma unidade de internação provisória, com permanência de até 45 dias, as ações desenvolvidas possuem um caráter transitório, o que representa uma especificidade do atendimento. Ainda assim, as oficinas tiveram impacto significativo no cotidiano da unidade.
Segundo Chocrón, os debates suscitados pelas oficinas alcançaram de forma direta os adolescentes atendidos. “As temáticas abordadas chegaram nesses adolescentes, principalmente raça e gênero. O trabalho sobre masculinidade é muito importante, porque 95% do sistema socioeducativo é composto por meninos. Precisamos refletir sobre o que ensinamos a esses homens jovens para que eles representem esse percentual da população socioeducativa”, afirmou.
Unidades femininas: Casef Padre João Maria e Casemi Santa Catarina
Nas unidades socioeducativas femininas, o baixo quantitativo de adolescentes exigiu estratégias específicas. No primeiro semestre, tendo apenas uma adolescente em semiliberdade, o grupo decidiu juntá-la às adolescentes em internação no momento da oficina. Já para o planejamento do segundo semestre, o baixo quantitativo nas duas unidades inviabilizou a continuidade do trabalho. O fato voltou à discussão nas falas das gerentes Soraya Medeiros (Casef) e Maria Rita (Casemi), porque o cenário é flutuante.
Direitos Humanos, Cuidado e Responsabilização
A oficina partiu do reconhecimento das emoções como elemento central do processo socioeducativo. Em diferentes formatos, ora foi abordada a responsabilização, ora o machismo e masculinidades. A potência do trabalho esteve em validar sentimentos historicamente reprimidos, transformando-os em reflexão crítica sobre direitos, responsabilidades e humanidade, detalhou a pesquisadora Helena Oliveira. A proposta contribuiu para que os adolescentes se percebessem como sujeitos de direitos, capazes de elaborar suas vivências de forma consciente e coletiva.
Unidades: Casep Metropolitano e Casemi Nazaré
Corpo e Movimento
Diferente de uma abordagem esportiva tradicional, a oficina teve como eixo o jogo, o brincar e a ludicidade. “É no brincar que o ser humano desenvolve sua personalidade por inteiro”, destacou o professor Aguinaldo Cesar Surdi. A proposta rompeu com a lógica competitiva predominante na educação e apostou na cooperação, empatia e interação como princípios pedagógicos. Ao dar voz aos adolescentes durante os jogos, a oficina mostrou que a cultura de paz se constrói na prática, fortalecendo a noção de que os participantes são capazes de alcançar objetivos coletivos por meio da colaboração.
Unidades: Case Pitimbu e Casep Metropolitano.
Arte e Cultura
A oficina promoveu reflexões sobre autonomia, autoestima e identidade, sempre estimulando a criatividade. Uma das atividades marcantes foi o “desenho do bicho esquisito”, que estimulou a expressão e o rompimento de padrões. Para a professora Estrela Santos, a experiência foi profundamente transformadora também para quem mediou o processo. “Existe um imaginário cheio de estereótipos sobre esses adolescentes, e quando estamos lá percebemos que não é nada daquilo”, ressaltou, destacando o aprendizado mútuo.
Unidades: Casef Padre João Maria/Casemi Santa Catarina e Case Pitimbu
Letramento Matemático
A proposta foi apresentar a matemática sob outro olhar, integrando afeto, cotidiano e mundo do trabalho. Atividades como futebol, cestaria e construção de pipas permitiram trabalhar conceitos matemáticos como simetria e proporção de forma concreta e sensível.
“O projeto nos transformou. Somos outras pessoas depois dessa experiência”, relatou a professora Mércia de Oliveira. Em muitos momentos, os próprios adolescentes ensinaram caminhos e soluções, revelando que o processo de aprendizagem foi profundamente dialógico. “Não sei quem aprendeu mais: se eles ou nós”, sintetizou.
Unidades: Casemi Nazaré e Case Pitimbu
Alfabetização e Letramento
A oficina trabalhou a relação entre ensino, aprendizagem e afeto, tendo a escrita como ferramenta central. A produção de cartas permitiu que os adolescentes expressassem sentimentos e referências importantes em suas trajetórias. Elementos como religiosidade, trabalho e família apareceram de forma recorrente e foram incorporados de maneira personalizada pelos participantes. “Dentre as várias atividades que fizemos, tivemos a do material escolar, eles personalizaram pastas ao avesso, onde eles puderam demonstrar vínculo afetivo também com as oficinas”, compartilhou a professora Tatyana Mabel, que também orientou junto com as bolsistas do grupo a gravação de um programa de TV fictício, com direito a entrevistas, no estúdio da Secretaria de Educação a Distância (Sedis/UFRN).
Unidades: Case Pitimbu e Casemi Nazaré
Assessoria de Comunicação – Fundase/RN
(84) 98729-2556 / 99916-1236
www.fundase.rn.gov.br
No Instagram: @RNfundase
Fotos: Isabela Santos